Estou relendo o Ciência em Ação do Latour e com a cabeça, dentre outras coisas, numa conversa com algumas pessoas bacanas sobre um projeto na interface Shiko – MetaReciclagem. A estória tá sendo contada numa TAZ: narts.
O que uma coisa tem a ver com a outra?
É que essa minha tentativa de compreensão da perspectiva do Latour (a de estudar os fatos antes que se tornem fatos, caixas-pretas) não cansa de me parecer poder ser “o que há para fazer” em qualquer coisa de “produção”. Ou seja, quando temos uma “produto final” não vemos ali toda uma interação prévia, as discordâncias, os descaminhos em decisões etc. Então, o que podemos aprender / apreender tentando perceber diferentes nuances neste percurso da construção do fato, do produto?
E se eu considerar que não há diferença entre como se produz uma política pública de um lado e uma peça de arte do outro?
No começo do ano passado me apareceram sinais de fumaça para direcionar a pesquisa para a interface arte-tecnologia. Teve até sugestão da minha orientadora para um financiamento de projeto. Mas depois de alguma reflexão sobre o assunto eu descartei. Não me sentia minimamente preparado para começar uma conversa sobre arte. Era uma coisa que assustava (ainda assusta). Quando penso na questão da linguagem e da comunicação, sei não. Confuso e assustador mesmo.
O outro lado da moeda é como ao longo do ano fui vendo, ouvindo, sentindo na Rede (o que é essa rede é outra questão, mas por enquanto vamos simplificar com o nome de MetaReciclagem) a presença e a força de algumas Coisas-Arte. Isto está nas pessoas, eu sei, mas as “organizações” ajudam… ( Peraí, eu ia dizer que que ajudam a simplificar mas fiquei em dúvida entre simplificar e complicar e enquanto fui escrevendo já pensei em “visualizar”. Mas nenhuma dessas palavras me parece resolver o apego a organizações.) O que eu chamo de Coisas-Arte se refere principalmente à Orquestra Organismo e Descentro (organizações?!). Mas não vou falar das pessoas agora, deixo para outros posts.
A questão do “em ação” está então em destaque para mim. Ver como é isso nesse trabalho por exemplo, é possível? Com que nível de envolvimento? O que de fato eu estaria acompanhando em ação? Não dá pra ter a mínima idéia do que #narts vai dar, ou até mesmo se vai dar em alguma coisa. Mas acho que isso se relaciona de alguma forma com #reacesso? A metáfora do fechar das caixas-pretas serve para arte? Préeeeeeeemmmmm (som de campanhinha de erro). A pergunta tá feita errada, já sei. Para isso, vou recorrer a outra obra do Latour, o Políticas da Natureza.
Queremos somente dizer que as outras culturas, posto que elas, justamente, não viveram jamais da natureza, conservaram para nós as instituições conceituais, os reflexos, as rotinas, de que teremos necessidade, nós os Ocidentais, para nos desintoxicar da idéia de natureza. (LATOUR, 2004, p.82)
Ora, as outras culturas não misturavam, em nada, a ordem social e a ordem natural: elas ignoravam a distinção. Ignorar uma dicotomia, isto não é confundir, de todo, os dois conjuntos em um só – menos ainda “ultrapassá-la”. ( LATOUR, 2004, p. 84)
E então posso voltar à questão. E se eu considerar que não há diferença entre como se produz uma política pública de um lado e uma peça de arte do outro?
O #reacesso, com todo respeito ao legado do Dpádua, que mais me preocupa neste momento é com as coisas do cara chamado Shiko. Preocupa não tratar utilitariamente a relação. Preocupa não fazer disso apenas uma máquina de produzir interesses. Sei que ainda não sei o que significa ser Sujeito, ser Ser, essas coisas da filosofia. O mais certo é que eu nunca saiba. Pra que saber? O que penso é numa imagem destas palavras que sintonize sentimentos em Shiko nos sentimentos que tenho de tudo isso. Sigamos.


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