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O que é Actor-Network Theory
Posted by dasilvaorg in ANT on 21/12/2010
*Actor network theory (ANT) é uma família de abordagens para a análise social que se apoia em seis pressupostos centrais. Primeiro, trata instituições, práticas e atores como materialmente heterogêneos, compostos não só de pessoas mas também de tecnologias e outros materiais. Segundo, assume que os elementos que constroem as práticas são relacionais, alcançam sua forma e atributos somente na interação com outros elementos. Nada é intrinsecamente fixo ou tem realidade fora da trama de interações. Terceiro, assume que a rede de relações e práticas heterogêneas é um processo. Se as estruturas, instituições ou as realidades não são continuamente representadas então elas desaparecem. Quarto, assume portanto que as realidades e estruturas são incertas, em princípio, se não na prática. Quinto, isto implica que o mundo poderia ser diferente, uma sugestão que abre interessantes possibilidades políticas. E sexto, explora como ao invés de porque realidades são geradas e mantidas. Isto porque até mesmo as causas sociais mais óbvias são efeitos relacionais e, portanto, elas mesmas sujeitas a mudança.

A ANT desenvolveu-se inicialmente nos anos 1980 em Paris, com o trabalho de autores como Michel Callon, Bruno Latour (Ciência em Ação, 1987) e John Law (Organizing Modernity, 1994). Ela cresceu (e cresce) através de estudos empíricos das tecnologias, práticas das ciências, organizações, mercados, serviços de saúde, práticas espaciais e do mundo natural. De fato não é possível apreciar a ANT sem a exploração de tais estudos de caso. Filosoficamente a ANT deve muito a Michel Serres (1930-5) e é geralmente pós-estruturalista em inspiração. Partilha então com os escritos de Michel Foucault uma preocupação empírica com padrões material-semióticos de relações, embora os padrões que distingua sejam menores em escopo do que aqueles identificados por Foucault.
A abordagem é controversa. Primeiro, uma vez que é não humanista, analiticamente não privilegia nem as pessoas nem o social, o que a diferencia de muito da sociologia em língua inglesa. Segundo, uma vez que oferece relatos de como, em vez de porque instituições tomam forma, é por vezes acusada de fraqueza explicativa. Terceiro, críticos de abordagem política sugeriram que ela é insensível ao “trabalho invisível” de agentes de baixo status. Quarto, tem sido acusada em algumas de suas versões anteriores de um viés para a centralização, ordenação ou mesmo gerencialismo. E quinto, feministas têm observado que a ANT tem mostrado pouca sensibilidade para a corporificação (ver corpo). Se estas queixas são atualmente justificadas é um questão para debate. Na verdade, a ANT e provavelmente melhor vista como um jogo de ferramentas e um conjunto de sensibilidades metodológicas do que como uma única teoria. Recentemente tem havido bastante intercâmbio entre a ANT e as teorias material-semiótica feminista (Donna J. Haraway) e pós-coloniais, e há o trabalho “after-ANT” mais recente que é muito mais sensível à política de dominação, à corporificação, ao “othering”, e à possível multiplicidade e falta de coerência das relações. Uma questão fundamental permanece política. Aqueles escritores “pós-ANT”, como Annemarie Mol (The Body Multiple, 2002) e Helen Verran, argumentam que as relações são não coerentes e produzem versões sobrepostos porém diferentes da realidade, então há espaço para uma política “ôntica” ou “ontológica”sobre o que pode e deve ser tornado real. Isto significa que as realidades preferíveis e alternativas podem ser desempenhadas numa existência ou tornadas mais fortes: a realidade não é destino.
* LAW, JOHN.Actor network theory. In: TURNER, Brian S.(ed.)The Cambridge Dictionary of Sociology. Cambridge: Cambridge University Press, 2006. p. 4-5. * Correções e adaptações minhas a patir da tradução do Google Translator.
A seguir o texto original. Qualquer comentário sobre adequação de termos e sentidos será muito bem vindo!!!!!!!!!!!
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Actor network theory (ANT) is a family of approaches to social analysis that rests on six core assumptions. First, it treats institutions, practices, and actors as materially heterogeneous, composed not only of people but also of technologies and other materials. Second, it assumes that the elements making up practices are relational, achieving their shape and attributes only in interaction with other elements. Nothing is intrinsically fixed or has reality outside the web of interactions. Third, it assumes that the network of heterogeneous relations and practices is a process. If structures, institutions, or realities are not continuously enacted then they disappear. Fourth, it therefore assumes that realities and structures are precarious in principle, if not in practice. Fifth, this implies that the world might be different, a suggestion that opens up interesting political possibilities. And sixth, it explores how rather than why realities are generated and maintained. This is because even the most obvious social causes are relational effects and therefore themselves subject to change.
ANT developed initially in the 1980s in Paris with the work of such authors as Michel Callon, Bruno Latour (Science in Action, 1987), and John Law (Organizing Modernity, 1994). It grew (and grows) through empirical studies of technologies, science practices, organizations, markets, health care, spatial practices, and the natural world. Indeed it is not possible to appreciate ANT without exploring such case studies. Philosophically, it owes much to Michel Serres (1930–5) and is generally poststructuralist in inspiration. It thus shares with the writing of Michel Foucault an empirical concern with material–semiotic patterns of relations, though the patterns that it discerns are smaller in scope than those identified by Foucault.
The approach is controversial. First, since it is non-humanist it analytically privileges neither people nor the social, which sets it apart from much English-language sociology. Second, since it offers accounts of how rather than why institutions take shape, it is sometimes accused of explanatory weakness. Third, political critics have suggested that it is insensitive to the “invisible work” of low-status actors. Fourth, it has been accused in some of its earlier versions of a bias towards centering, ordering, or even managerialism. And fifth, feminists have observed that it has shown little sensitivity to embodiment (see body). Whether these complaints are now justified is a matter for debate. Indeed, ANT is probably better seen as a toolkit and a set of methodological sensibilities rather than as a single theory. Recently there has been much interchange between ANT, feminist material-semiotics (Donna J. Haraway) and postcolonial theory, and there is newer “after-ANT” work that is much more sensitive to the politics of domination, to embodiment, to “othering,” and to the possible multiplicity and non-coherence of relations. A key issue remains politics. Such “after-ANT” writers as Annemarie Mol (The Body Multiple, 2002) and Helen Verran argue that relations are non-coherent and enact overlapping but different versions of reality, so there is space for “ontics,” or an “ontological politics” about what can and should be made real. This means that alternative and preferable realities might be enacted into being or made stronger: reality is not destiny.
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- What is it like to be Bruno Latour? (orgtheory.wordpress.com)
- viviana zelizer on gifts and money in the NYT (orgtheory.wordpress.com)
contralaboratórios
Posted by dasilvaorg in ANT on 03/08/2010
No final de junho agora recente o @samadeu citou a noção do Bruno Latour de que todo laboratório é um contralaboratório. Ainda que eu não tenha entendido o sentido pretendido pelo Sérgio, a menção me fez lembrar que eu estava pensando em algo assim no contexto das conversas RedeLabs. Daí resolvi primeiro tentar sintetizar aqui uma noção de contralaboratórios para depois, se fosse o caso, pensar nessa relação. Era uma coisa pra ter saído logo na primeira semana de julho, mas… Enfim, está aqui agora.
Laboratórios são importantes locais de trabalho para cientistas e produtores de tecnologia, são os espaços onde se dá vida a fatos e artefatos. Dá pra pensar no contexto das produções de laboratórios associadas a muitas das coisas com as quais convivemos diariamente. Na microinformática, por exemplo, a Apple tem seu Ipad (totalmente fechado totalmente proprietário) que pode ser visto como uma produção de laboratório, no sentido de que é fruto de Pesquisa e Desenvolvimento.
Laboratórios são contralaboratórios no sentido de que o que produzem está sempre, de alguma forma, ao mesmo tempo, contestando propostas de outros laboratórios. Simplificando, na indústria da microinformática aqueles que acreditam e apostam no LIVRE (genericamente qualquer iniciativa afinada com a filosofia do software livre) seriam contralaboratórios dos que apostam no proprietário e assim por diante.
Pensar em contralaboratórios desta forma dá uma visão clara, boa pra perceber o cerne da questão, mas que tem um problema: o mundo já não se divide mais no bem e no mal e nos 10 mais elegantes. Provavelmente nunca se dividiu. Estamos todos ligados de alguma forma e é sempre muito complicado fazer distinções. E para complicar um pouquinho mais podemos ainda raciocinar naquela filosofia de HQ, em que os bandidos se originam de alguma forma a partir do herói e vice-versa.
Laboratórios e contralaboratórios não são empreendimentos de posição, postura, moral, práticas, óbvias e neutras. Laboratórios geralmente estão performando seus próprios contralaboratórios, que estão performando também seus próprios contralaboratórios em espiral infinito.
A antropologia das ciências propõe que nenhum fato ou artefato pode ter sua existência creditada à sua “natureza” ou superioridade frente a outros. O que ocorre na verdade é que são as associações entre as entidades que tornam vencedor esta ou aquela entidade. Se passarmos a pensar nas associações entre humanos e não-humanos vamos ver que nos laboratórios não discutimos um bom número de “realidades”. Lidamos com vários fatos e artefatos, que participam do processo de construção de outros fatos e artefatos, como entidades fechadas, definidas, de função determinada. Não questionamos quais as associações que a fizeram se estabelecer como vitoriosa. As entidades chegam a um ponto de estabilização tão amplamente aceito que parece não fazer mais sentido questioná-las.
Fatos, objetos, artefatos, que não questionamos mais tornam-se caixas pretas no processo de produção nos laboratórios. Recebem entradas e produzem saídas, mas ninguém sabe exatamente o que acontece no entre, os procedimentos do entre não mais discutidos, o importante é o que ela faz. E no caso da Ciência o não questionar desse fazer é um ponto importante do processo. Alcançar esse não questionar é fechar mais uma caixa-preta.
Referências
LATOUR, Bruno. Ciência em ação: como seguir cientistas e engenheiros sociedade afora. São Paulo: UNESP, 2000.
LATOUR, Bruno. Esperança de Pandora. Bauru, SP: EDUSC, 2001.



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