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Para os Administradores do Século XXI

A regulamentação da profissão de administrador no Brasil data 9 de setembro de 1965, por isso a comemoração do dia do administrador. Em minha limitada visão há pelo menos dois pontos de destaque no cenário de regulamentação da profissão e  estabelecimento da área de ensino no Brasil  que se mostram muito interessantes para investigações /discussões da ação de administrar no século XXI. Olhando para trás, para cima, para baixo e para frente ao mesmo tempo.

O primeiro ponto é a presença do termo “técnico” no início das formulações legais da profissão. A profissão foi inicialmente regulamentada como “Técnico em Administração”. Apenas vinte anos depois, 1985, consegue-se a mudança para “Administrador”. Mudança que, segundo o CRA-SP, foi fruto de uma luta de 10 anos.  Uma das  questões que me vem imediatamente quando penso naquela realidade é a de quais eram as denotações e conotações que o termo “técnico” assumia no Brasil na segunda metade do século XX. Mais especificamente, quais eram as compreensões deste “técnico” na disputa que envolveu a mudança de “Técnicos de Administração” para “Administradores”? Se houve luta, quais as motivações dos diferentes lados na disputa? Taí uma investigação histórica que pode ser bem interessante.  Mas quisermos  deixar para trás o passado (como se isto fosse possível) e pensar apenas no futuro ( que está muito mais para presente) podemos pegar um termo similar, derivado mas diferente, que talvez ajude: “tecnólogo“. Já pensou?

O segundo ponto que destaco no cenário brasileiro de estabelecimento do “administrador” é nossa tutoria estadunidense, materializada principalmente no convênio da FGV com a USAID e a Universidade de Michigam. Historinha bacana que você pode conferir, dentre outro lugares, no site do CFA. Depois de assimilar a simbiose entre o  domínio estadunidense, as grandes corporações da segunda metade do século XX e a profissão do administrador, olhe para a situação dos E.U.A hoje, para o histórico de atuação corporativo principalmente pós II G.G. e para a situação do desenvolvimento ao nosso redor e me diga: Como seria se fosse hoje? Ainda criaríamos uma profissão essencialmente atrelada à visão estadunidense e corporativa do mundo?

Comecei  a entender o que chamo hoje de  ”vinculação ideológica dominante na Administração”  depois que tomei contato com a crítica de  Aktouf  ao pensamento porteriano. Isto foi logo no início do meu mestrado e apenas alguns meses depois de ter defendido uma monografia de graduação essencialmente porteriana. Irônico, se não fosse triste. O choque daquele encontro foi certamente o que definiu este meu direcionamento, esta  minha inclinação ideológica que a partir de então só passou a ser reforçada nas buscas  (e encontros)  das minhas interpretações  do fazer acadêmico práxis.

Na práxis dos movimentos, dos fluxos,  das actor-networks que acompanho atualmente  vejo necessidades de administração completamente inadequadas para  pensar /fazer orientadas pelo viés dominante. Ao mesmo tempo infelizmente estas realidades  me parecem impregnadas (principalmente de forma inconsciente acredito eu )  por aqueles significados da administração. E claro, estão também inevitavelmente imbricadas em fluxos onde a vinculação dominante é  a ordem da casa.

A redução de todos os possíveis significados e práxis da Administração à vinculação dominante é algo que se opera muito facilmente em nosso meio,  com poucos questionamentos . Um exemplo bem simples de como isto se dá é o da prática discursiva da “empresa social”, ou “negócio social” etc. Noções que  estão no cerne do que propõem iniciativas como as de  Paul Polak ou do Next Billion.  Para mim este tipo de solução nos desvia da busca por soluções mais apropriadas para cada coisa distinta. Principalmente porque impõe para outros aspectos da vida o padrão cultural da solução “negócios”, da lógica empresarial, de práticas que se por um lado alavancaram certo tipo de crescimento e desenvolvimento, por outro também produziram muito do estado de degradação das atuais sociedades.

Ficam aqui então o meu dois centavos de contribuição para as comemorações nesta data. Enfatizando, de acordo com os dois pontos destacados, primeiro a atenção para importância de uma compreensão mais aprofundada da nossa relação com a técnica, com a tecnologia. Como esta relação se dá? Como fazemos o que fazemos junto com a técnica? O que a técnica faz conosco? Segundo,  relembrando a vinculação ideológica dominante em nossa área, será que realmente é necessário mantermos uma formação ideológica tradicional (leia-se aquela vinculada ao interesses dos E.U.A – ou outros “líderes” mundiais –  e das grandes empresas )  para apenas a partir das pós-graduações abrirmos espaços para as desconstruções? Enfim, que Administradores queremos para o século XXI?

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